Nunca se viu um livro de desenho na secção de auto-ajuda.
Não se quer com isto dizer que deva haver livros de desenho em dita secção mas de que maneira não é o desenho uma postura perante a vida?
E não, o pretendido não é a cura emocional do "indivíduo amargurado" que deixa bem claro naquilo que faz que dói muito (pouco).
Desenhar é um exercício de extrema violência porque, acima de tudo, requer extrema atenção.
Numa era onde tudo anda em todo lado excepto na terra, não há nada mais violento do que prestar atenção. Francis Bacon dizia que pintava o mundo.
Não será o desenho o exercício mais verdadeiro?
Isto é, não será o desenho a maneira mais atenta de olhar o mundo?
Saussure estudou a maneira como a linguagem, a fala e a cultura se relacionavam. Estudou a dicotomia entre significante e significado.
Em que medida é que o desenho se relaciona com isto? O desenho é em si mesmo uma linguagem, mas muito diferente da das letras.
Acima de tudo o desenho acaba logo com o significante e o significado, um desenhador atento não dá nome ao objecto que tem na frente - isto é redutor.
O desenho não dá nome à forma nem ideia à forma. Uma roda de bicicleta deixa de ser uma roda de bicicleta - agora não é nada, é aquilo, aquele conjunto de formas(sem nome) que se relacionam e vivem entre si.
Se o desenhador der um nome àquilo que tem na frente está a reduzi-lo à ideia correspondente ao nome atribuído. Deste modo não está a captar o objecto na sua essência.
Mas de que modo é que isto colocaria o desenho na secção de auto-ajuda. Porque é que quando um exercício de desenho "corre bem" é terapeutico?
Kant falava no númeno, os gregos falavam no bem.
De uma maneira um pouco infantil e ingénua não será a postura no desenho uma tentativa de atingir o mundo da ideias ao invés de ficar preso no mundo das sombras?
Não será o processo de não atribuir designação também o processo da douta ignorância?
Desenhar acaba por ser terapeutico porque é uma epifania.
Naquele momento, aquele "monstro" de que era impossível fugir, deixou de ser monstro, passou a ser tudo e devolveu aquilo que lhe tinha sido dado.
Como não foi um nome, deu-se de volta inteiro.
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domingo, 24 de novembro de 2013
ai
"A melhor maneira de evitar que um prisioneiro escape é ter a certeza de que ele nunca se aperceba de que está na prisão."
Fyodor Dostoyevsky
Foi preciso chegar à recta final de uma pena prisional de mais ou menos 19 anos para ouvir (finalmente!) um dos guardas admitir que, sim senhora, quer queiramos quer não, estamos presos à mais ou menos 15 anos.
A escola não educa, a escola amestra.
Um senhor importante relacionou a criação da escolaridade obrigatória (e não só) com a mudança do sistema penal no século XVIII.
Até ao final do século XVIII (salvo erro), o sistema penal era um sistema de suplício - o castigo era físico e público, o pobre coitado era decapitado em público, a audiência divertia-se ao saber que ainda tinha cabeça e seguia para casa para pensar duas vezes da próxima vez que contemplasse cometer um crime.
Mas muitas das vezes o castigo aplicado não era de todo proporcional ao crime cometido. Isto causou tumultos e os carrascos começaram a ser perseguidos e os tribunais atacados. Causou agitação porque se viviam tempos muito complicados e era criminoso matar-se alguém porque roubou um pedaço de pão.
Consequentemente, os órgãos judiciais da altura viram-se obrigados a reformar o sistema penal.
E assim nasceu o sistema penal actual, o de encarceramento! Mas sejamos honestos, é complicado explicar seja a quem for que alguém que mata 15 pessoas vai passar o resto da vida a jogar no pátio da prisão e a ver telenovelas.
Para habituar as pessoas de que estar fechado num sítio, a cumprir regras, X horas por dia é simultaneamente uma seca e uma coisa perfeitamente normal foi criado todo um sistema de organização social baseado na prisão. E com isto a escolaridade obrigatória.
Como tudo na vida, a escola é uma faca de dois gumes - é verdade que sim, é imprescindível que toda a gente (sem excepções) tenha acesso a educação e literacia MAS será que essa educação e conhecimento residem na escola?
A grande questão aqui é esta: Será que a escola como a conhecemos nos dá realmente ferramentas para crescermos enquanto ser humano, ou será que a escola não é nada mais que uma obrigatoriedade para nos preparar para as penas que ainda nos faltam cumprir? Mais, será que eu estou na escola para aprender ou para responder a questões escolhidas a dedo?
Quantos de nós se viram com uma corda ao pescoço porque aquilo que era importante tratar, ou aquilo de que era (in)conveniente falar não saía em exame?
De que é que serve formar indivíduos se isso estraga o esquema todo?
As resposta de exame têm de ser todas iguais.
(O senhor importante é Michel Foucault)
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