Mostrar mensagens com a etiqueta 7663. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 7663. Mostrar todas as mensagens

domingo, 29 de dezembro de 2013

O consumo consome

          Apesar da Indústria Cultural ser o agente primordial e essencial na criação de uma consciência colectiva nas sociedades massificadas, a produção da "cultura" é direccionada apenas e só para a obtenção de lucros, sendo que na base estão os padrões de imagem cultural já pré-estabelecidos, alcançando o interesse das massas sem solicitar o trabalho mental de carácter crítico por parte dos espectadores. Esta indústria estimula, deste modo, uma visão apática e acrítica do mundo, fornecendo ao público o que ele deseja, desvalorizando o esforço pessoal e o pensamento crítico. As  pessoas são formatadas a procurar o já conhecido e já experimentado.

"O consumidor não é soberano como a indústria cultural quer fazer crer, não é o seu sujeito, mas o seu objecto." (Adorno, 1967)

            A cultura de massas abrange todas as fontes de informação, como a televisão, o rádio, os jornais, as revistas, as redes sociais, e através delas intenta manipular, influenciar e controlar a população. Portanto, os meios de comunicação exibem só aquilo que lhes interessa, não existe divisão entre bom e mau, o único propósito é lucrar. Hoje em dia assistimos a realidades absolutamente chocantes a esse nível: desde programas de televisão que visam divulgar segredos macabros e grotescos (para não dizer ridículos), com histórias e pessoas retardadas, formatadas e extremamente anedóticas, a certos textos que lemos em revistas que nos falam do divórcio duma e outra, ora uma que foi de férias e outra que não quer saber dos filhos e ainda outra que traiu o marido, textos todos eles dentro desse mesmo "feitio", ridículo, irrisório e irrelevante.
            Peguemos no exemplo mais prático e comum: a televisão. Apesar de ostentar vantagens a nível da cultura, na medida em que oferece uma enorme cobertura geográfica, variação de matérias e múltiplos horários, usufrui de esquemas que escapam completamente ao consciente do espectador. Começando nos Reality Shows, acerca dos quais o público pensa que está a participar e a interagir, mas o que está por trás de todo o teatro, é a venda dos produtos e marcas patrocinadoras; passando pela novelas que só transmitem futilidades e maus exemplos, louvando o amor e a "boa vida"; acabando na quantidade astronómica de publicidade que um canal ostenta, cerca de 15/20 minutos de intervalo só com publicidade a carros, perfumes, brinquedos, lojas, seguradoras, bancos, etc.
            A verdade é que todos este alarido-fútil-e-ridículo-que-não-serve-para-nada adquire o interesse das massas, não estimulando um único neurónio, muito menos o caráter crítico da sociedade. Chamemos a todo este processo "lavagem cerebral", quanto a mim é o termo que melhor se encaixa. Ao fim e ao cabo, tudo serve de instrumento a serviço do consumo, aqui e agora, Consumismo é a palavra -chave.
            Todos sabemos que o Consumismo é preciso ser combatido, todos somos contra e queremos mudar este modo de vida, mas é fácil falar... A dificuldade está em fazer. Quem nunca se arrependeu de ter comprado mais do que o necessário?  Aquela camisola que nem é muito gira, mas que estava a 2€ e valia a pena; ou o mp3 que é sabido que vai avariar em pouco tempo, mas que estava tão barato que, se avariar, compra-se outro; ou o tal pack de 5 Coca-colas que nem é hábito ter lá em casa, mas como dizia "leve 5 pague 4" foi uma boa compra; ou ainda aquela pizza congelada que antes estava a 3€ e agora está a 2,99€...?
            Durante anos e anos, o consumismo tem sido a mola propulsora do desenvolvimento. Até quando vai isto continuar? Quando vamos reagir e fazer algo, de uma vez por todas?
            A ausência de juízo crítico deixa-nos total e completamente alienados e manipulados pela Indústria Cultural, que molda toda a produção artística e cultural.  



Referências:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Indústria_Cultural
http://artescooper.blogspot.pt
http://www.infoescola.com/cultura/industria-cultural/

http://www.insite.pro.br/2011/Setembro/massas_industriacultural_adorno.pdf

domingo, 24 de novembro de 2013

Camuflagem

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha mas sim sob aquelas com que se defrontam directamente, legadas e transmitidas pelo passado. [1]

           Podemos verificar isso mesmo, ao longo de todos os séculos.
         Façamos deste meu texto tão pouco interessante, uma máquina do tempo e recuemos até aos séculos XVI, XVII e XVIII, durante os quais predominou, na Europa, o Absolutismo. O culminar de um processo já iniciado na Idade Média (passado), que significou o fracasso da Nobreza e o sucesso da monarquia; a afirmação do soberano, que se dizia "Homem especial" porque o seu poder lhe era transmitido directamente por Deus (e não por ser filho de realeza, que era filha de realeza, que era filha de realeza e por ai em diante - o tal legado que nos é transmitido pelo passado - não, vossa alteza era escolhida por Deus e a doutrina sustentava que o seu direito de governar derivava da vontade de Deus, e não de qualquer autoridade temporal ou qualquer testamento) e do poder que este tinha sobre os seus súbditos. A Igreja e o Estado caminhavam lado a lado, "de mãos dadas": o político usava o sagrado e o sagrado usava o político. Se era proibido na ordem religiosa, também o era na civil. Daí a expressão "A união Trono e Altar".
          Reflictamos.

    Trono. Altar. (des)União. Poder. Deus. Soberano. Súbditos. Vontade. Proibido. Absoluto.  Sistema. Ideologia.

          Peguemos naquela última palavra. Ideologia.

            Ideologia (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa) s. f. i·de·o·lo·gi·a (ideo- + -logia) substantivo feminino; ciência da formação das ideias. Tratado sobre as faculdades intelectuais. Conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais, políticos que caracterizam o pensamento de um indivíduo, grupo, movimento, época, sociedade (ex.: ideologia política). [2]

            Segundo Karl Marx, a Ideologia é a consciência que cada um tem da realidade. É portanto uma ilusão, uma consciência sempre falsa, já que depende das condições materiais e variáveis da vida; o material é que determina a consciência. Qualquer relação com a realidade é de falsidade, de distorção. Eis o conceito de Ideologia de Marx, que assume a relatividade da percepção que temos em relação ao que nos rodeia e aparece como concepção idealista na qual a realidade é invertida e as ideias aparecem como motor da vida real. "(...) No marxismo posterior a Marx, sobretudo na obra de Lenine, ganha um outro sentido, bastante diferente: ideologia é qualquer concepção da realidade social ou política, vinculada aos interesses de certas classes sociais particulares."[3]

"(...) ideologia é o conjunto das concepções, ideias, representações, teorias, que se orientam para a estabilização, ou legitimação, ou reprodução da ordem estabelecida [Já utopias,] (...) são aquelas ideias, representações e teorias que aspiram uma outra realidade, uma realidade ainda inexistente." [3]
           
          Portanto, a Ideologia age mascarando a realidade, originando a sua inversão ou a camuflagem, para os ideais ou interesses da classe dominante.
        Assim, funcionou o sistema Absolutista. Servindo os interesses da classe dominante (Rei/Nobreza) e ocultando a realidade. A perspectiva e o modo de ver as coisas, não era encarado pela sociedade como falso. A falsa consciência está sempre mesmo "à frente dos nossos olhos", mas escondida. Uma das características daquilo que é ideológico é ser natural aos nossos olhos, não o sendo realmente. Ou seja, a ideologia disfarça-se de natural, mas é tudo menos natural.
          Nós estamos constantemente a confundir o que está numa camada natural (que é necessário) com o que está na camada cultural (que é arbitrário, discutível). Para as pessoas dos séculos XVI, XVII e XVIII, era "natural" aquele poder divino do rei, a perseguição da igreja, o Deus-todo-poderoso, o castigo divino, a dedicação (ou "obsessão") religiosa, etc. Quando na verdade tudo isso fazia parte da camada cultural, sendo assim arbitrário e não necessário. Fazia parte das regras culturais, era "normal".
      Regressemos ao presente, nesta nossa máquina do tempo. Aqui e agora a questão é: Estaremos confundidos? O ser humano não muda. Mudaram-se os tempos mas os pensamentos mantiveram-se os mesmos. Será que vivemos numa situação assim tão diferente daquela que se viveu à séculos atrás? Pensemos.
           
          E se quisermos, faremos uma visita ao futuro. Mas isso ficará para mais tarde. Numa próxima viagem.
          Aqui e agora, reflictamos.

"Até agora, os homens formaram sempre ideias falsas sobre si mesmos, sobre aquilo que são ou deveriam ser. Organizaram as suas relações mútuas em função das representações de Deus, do homem normal, etc., que aceitavam. Estes produtos do seu cérebro acabaram por os dominar; apesar de criadores, inclinaram-se perante as suas próprias criações. Libertemo-los portanto das quimeras, das ideias, dos dogmas, dos seres imaginários cujo jugo os faz degenerar. Revoltemo-nos contra o império dessas ideias. Ensinemos os homens a substituir essas ilusões por pensamentos que correspondam à essência do homem, afirma um; a ter perante elas uma atitude crítica, afirma outro; a tirá-las da cabeça, diz um terceiro e a realidade existente desaparecerá." [4]


Referências:
[1] MARX, Karl, O 18 Brumário de Louis Bonaparte, São Paulo: Escriba, 1987, p.15
[2]"ideologia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/ideologia
[3] LOWY, Michael, Ideologia e ciência social, São Paulo: Cortez, 1985, p. 12 e 13

[4] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich, A Ideologia Alemã, 3ª edição, São Paulo: Wmf Martins Fontes, 1974, prefácio