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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

troca da vida pelo sem-vida


É um facto que com o tempo as pessoas tornaram-se devotas do materialismo e procuram confortos e, para obtê-los, sujeitam-se a horas semanais de trabalho.
Antigamente, o artesão detinha conhecimento de todos os passos para a fabricação dum determinado produto, pelo que com o surgimento da industrialização o operário foi encaminhado a exercer unicamente uma função e, assim, passou a desconhecer o produto final para o qual investia trabalho. Esta divisão de tarefas implicou, por isso, que os trabalhadores desenvolvessem um trabalho muito mecanizado, pelo que deu rumo a um desvanecimento do prazer por trabalhar.
Trabalhar, deste modo, não trás realização ao trabalhador, pelo contrário, escraviza-o. Escravo do objeto, o trabalhador ao exercer a sua atividade mecânica está, simultaneamente, a valorizar o mundo dos objetos e a desvalorizar o mundo dos homens, pelo que deveria exercer superioridade no objeto, e não o contrário. Além deste pressuposto, o que o trabalhador parece não se aperceber é que o tempo que investiu (de vida) no objeto a construir, não volta, pelo que deixa de pertencer a si para pertencer ao objeto.
Exercer a atividade no trabalho deixa de ser uma manifestação essencial do homem, para ser um trabalho forçado e não voluntário, pelo que deixa uma crescente pobreza na vida interior do ser humano. O facto de por vezes trabalhar mais do que o necessário faz com que ele mesmo se afaste de si próprio e da sua natureza, pois no trabalho não existe o desenvolvimento de uma livre energia física e espiritual, mas um sacrifício, prejudicando-se continuamente a si mesmo, tal como confirma Karl Marx, que insiste na verificação de uma sobreposição do objeto face ao Homem, “O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz(…)” (O Trabalho Alienado, 1993).
Entretanto, levanto uma questão: - “porque é que as pessoas se sujeitam a isto?” - porque, como havia referido inicialmente, a sociedade procura saciar as suas necessidades e confortos e, por isso, além de trabalhar mais do que necessário, desenvolveu uma cegueira pelo dinheiro, pois é enfeitiçada pelos objetos físicos maioritariamente através da publicidade, sabendo que a tecnologia e a inovação sempre lhe despertaram fascínio. Posto isto, não é por acaso que na época natalícia existe um maior número de anúncios a brinquedos, por exemplo.
As pessoas trabalham exaustivamente para ganhar dinheiro, para obterem coisas que não têm, muitas delas de que não precisam realmente e, portanto, evocando novamente o natal, sentem uma necessidade implacável de comprar, comprar e comprar, pois entendem que esta época representa sempre uma boa oportunidade para se encherem, como se costuma dizer, de “mimos”. Pois é aí que se enganam redondamente. A verdadeira felicidade nunca será descoberta nos objetos. A história vulgar de as pessoas abdicarem do seu tempo a trabalhar miseravelmente durante um mês para acabarem uma tarde num centro comercial a colecionar objetos não parece refletir muita felicidade.
Pessoalmente, faz-me alguma confusão que as pessoas, “encantadas” pela novidade, estejam dispostas a trocar 700€ por um iphone 5, quando esta quantia corresponde a um valor superior ao que muitos indivíduos recebem por mês, além de se tratar de um objeto completamente desnecessário, o que prova que o ser humano sobrevaloriza os objetos físicos ao invés da sua própria vida, gasta pelo sobre trabalho.
Esta alienação no trabalho e “obsessão” pela obtenção de mercadoria faz com que o objeto fique a “ganhar” a duplicar, ao passo que o trabalhador/consumidor fica ingenuamente em desvantagem, pelo que mal não faria se os consumidores, isto é, todos nós, parássemos instantaneamente esta alienação para refletir uma curta frase como “O que possuis possui-te”.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

liberdade=limitação?

“(…) the categorical imperative of the culture industry no longer has anything in common with freedom.” (Adorno, Culture Industry Reconsidered)

Quando o mercado de um produto dá conta de indícios de fraqueza, tende para o planeamento de uma segmentação, apostando num produto à medida de cada consumidor.
Esta decisão, ao contrário do que nos pretendem fazer acreditar, não se destina primordialmente à satisfação do consumidor, mas para garantir o crescimento do produto no mercado, uma vez que esta segmentação, para além de categorizar os produtos, divide também os consumidores por tipologias. Estas distinções categóricas relacionam-se em grande medida com a sua utilidade para a classificação, organização e análise estatística dos consumidores, do que propriamente o seu conteúdo. Está tudo previsto, cada consumidor, de acordo com expectativas e “cálculos”, age em conformidade com a sua identidade e escolhe o produto fabricado para a sua tipologia de consumidor.
Esta estratégia com algum carácter manipulador é aplicada sobretudo, se não unicamente, para que possam alcançar um público mais variado e em maior número possível.
Tal como no mercado, esta segmentação também se faz sentir no cinema. Dois realizadores, como Tim Burton e Quentin Tarantino, desenvolvem categorias fílmicas distintas, pelo que podem ser apreciadas de diferentes formas e por diferentes públicos.
Um sujeito aleatório tanto pode torcer o nariz como ter uma reacção de aceitação automática. Mas este sujeito, se sempre optar por assistir a filmes realizados por Tim Burton, ou seja, limitar-se ao que é fiel à sua identidade (se assim o considerar) e, portanto, quase “obedecer” a uma categoria predestinada, nunca vai conhecer Quentin Tarantino, e tantos outros. Fecha-se, em si.
O que pretendo dizer é que esta segmentação pode, ou não, ser beneficial. É, no sentido em que existe uma maior variedade de escolhas, exposta ao consumidor. Por outro lado, o consumidor, ao colocar a sua identidade em primeiro lugar, está a limitar a sua experiência face a tudo o que lhe é proporcionado. Tal como confirma Adorno, o público, embora seja confrontado com grande variedade, cai na ilusão de que lhe é fornecida liberdade.
Esta liberdade leva-nos a caminhar para a nossa área de conforto, mas devemos evitar o que está para além dela?