Mostrar mensagens com a etiqueta 7650. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 7650. Mostrar todas as mensagens

sábado, 28 de dezembro de 2013

Já não há paciência

Há pouco tempo li um artigo no "Ípsilon" (o suplemento do jornal "Público") de António Pinto Ribeiro que me deu muito que pensar. Para começar, no texto é feita uma comparação entre os programas de culinária e a "grandeza" e "teatralidade que a culinária e os alimentos realmente merecem". Ou seja, nos concursos de cozinha muitas vezes é nos apresentado um certo frenesim e competitividade que, se pensarmos bem , são desnecessários.
Esta pressa não corresponde às ideias apresentadas no quadro de Josefa de Óbidos, "Uma natureza morta com doces e barros", de 1676 ( que neste caso serve de exemplo). Pretende-se transmitir uma "panóplia de sugestões sensoriais" sugerida "pelos folares pascais ali pintados, pelos ovos cozidos, pela tigela de doce de chila, os pães de ló, as queijadas", realça-se o melhor que há na comida. Aqui os ingredientes correspondentes a cada estação são respeitados. É preciso esperar, isso faz com que o aparecimento de um novo alimento seja um acontecimento especial.
Todos os concursos, desafios ou duelos culinários são o reflexo destes ritmos apressados em que hoje vivemos. Sacrificamos, por isso, a qualidade dos produtos e, de certa forma recusamos a paciência que era pedida por muitas destas técnicas e pelos tempos de cada colheita.
Se estivermos atentos percebemos que a qualidade dos produtos está cada vez mais a diminuir, não só no que toca à comida, mas também em tudo o resto: telemóveis, roupa, música,etc.
Tudo é feito com muita rapidez, não se explora nada de novo, "contraria-se a ideia de haver um momento especial", quase que neutraliza o carácter único que certas coisas tinham.
No fundo estas particularidades são contornadas a favor da publicidade ou do dinheiro rápido.
Portanto, nestes programas "Destituídos de alma parecem antes estimular a bulimia, o consumo imparável" deixa de haver espaço para algo de mais puro.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A construção do básico

Recentemente, Joana Vasconcelos criou, a convite da casa Dior, um novo trabalho que tem tido um sucesso crescente. Trata-se de um laço gigante, dourado, chamado "J'adore Miss Dior". "J'adore" por causa dos frascos que decoram a escultura, e "Miss Dior" porque a forma do laço lembra-nos o icónico perfume.
E é isto. Penso que não se podia ter encontrado explicação mais óbvia, como um simples jogo de palavras ou de associação.
Como é que algo tão básico tem tanto êxito?
Isto deve-se à mentalidade actual influenciada por vários conceitos trazidos pela massificação.
Jean Baudrillard na sua obra "A Sociedade de Consumo" afirma que " Encontramo-nos em pleno foco do consumo enquanto organização total da vida quotidiana, enquanto homogeneização integral onde tudo está compendiado(...) O trabalho, o lazer, a natureza, a cultura (...) ei-las agora como um todo misturado (...) homogeneizado no mesmo "travelling" de um "shopping" (...) Finalmente, eis tudo digerido e restituído à mesma matéria fecal homogénea" devido ás vidas que levamos, ao nosso trabalho, ao facto de estarmos submetidos a todo o tipo de horários, criámos um dia-a-dia com ritmos muito acelerados e a partir daqui começámos a cultivar um gosto e uma necessidade por tudo aquilo que é óbvio, simples e básico.
Já não há espaço para a contemplação ou para a meditação. Roland Barthes analisou e estabeleceu comparações no livro "O grão da voz", baseando-se nas suas vivências no Japão. Definia os factores da vida japonesa como algo muito mais fluído "as inscrições, os gestos da vida quotidiana, os pequenos ritos da cidade (...) Para mim, tudo aparece aí como os traços, os acidentes de um texto. No Japão, estou numa constante actividade de leitura".
Talvez seja disto que nós precisamos agora: de abrandar, de reflectir ou de estarmos mais atentos, para aprendermos a encontrar, valorizar e estimar um mundo de coisas realmente interessantes.